segunda-feira, 9 de abril de 2007

Relatório

A escolha do tema Tropicália para este trabalho de multimídia e hipermídia aparentou não ter muita complicação, pois trata de um movimento brasileiro que teve uma grande repercurção mundial e trouxe tanto para a música, quanto pra a poesia e para as artes plasticas, uma nova linguagem, sendo assim muito simples de desenvolve-lo. Porém o trabalho em sí estava em "mastigar em esferas" a Tropicália. Relacioná-la criativamente com algo que fizesse parte dela e que até a explicasse, de uma forma totalmente subjetiva, entendendo suas influências, suas formas, seus conteúdos, sua realidade e idealidade, a atualidade e o virtual.

Texto literário: O texto literario usado foi um conto de João Gimarões Rosa, "A terceira margem do rio". Este conto trata de uma familia, em que o pai constroi uma canoa e sai remando pelo rio afora, começando assim uma eterna angustia. Enquanto a familia o espera voltar sem entender o por que daquilo tudo, o pai não sai do rio, nem vai para outras margens, nem volta para sua margem, nem vai embora, nem vai para casa. Fica estatico na "terceira margem". No caso a Tropicália seria esta terceira margem, pelo fato de tanto receber influências externas, internacionais(outras margens do rio), quanto regionais, brasileiras(sua margem do rio); representa tanto a evolução, no sentido de sincretizar culturas, como a inevolução do povo brasileiro; ainda o texto usa uma linguagem literária erudita com influências populares, sobre assuntos existênciais que podem ser aplicado, figuralmente, para todos.

Texto teórico: O texto teórico usado foi encontrado na internet e não se sabe o autor. Ele trata do sincretismo da Umbamda. Uma religião formada por varias outras. Pode-se relacionar o tropicalismo com o movimento da semana de 22 e seu manifesto antropofágico, pelo fato de usarem da mesma fonte: a mistura de culturas. Entendendo essa mistura como sendo uma sobreposição de culturas é possivel dizer que a Tropicalia causa um efeito de aculturação, mesmo que possitivo, sobre ela mesma e sobre outras culturas. Agora, transformando a atmosfera, torna-se natural a vizualização do sincretismo da umbanda. Da mesmo forma que mistura culturas religiosas, o tropicalismo é uma mistura e a consequência dessa mistura.

Wiki I e II: O conceitos retirados do Wikipedia estão disponibilizados para facilitar o entendimento do pensamento criativo desenvolvido.

Imagens: As quatro imagens selecinadas se relacionam entre sí.
Duas delas são de dois movimentos artísticos opostos, o Romântico e o Realismo. Enquanto o primeiro, que surgiu em contraposição ao Romantismo, tratava, em sua arte, da pura realidade como era vista. O segundo tratava do mundo idealizado, sob influência dos conceitos da revolução francesa: Liberdade, Igualdade e Fraternidade.
Esta relação "Realidade X Idealidade" está presente nos conceitos do concretismo (tripé Tropicalista), pois ele tentava de uma forma coesa terminar com a distinção de forma, como sendo a parte do ideal(beleza), e conteúdo, parte do real (intelecto).
As outras duas imagens são Impressionistas. Este movimento artístico surgiu no sentido de acabar com a representação artística realista ou idelizada, assim como o concretismo na forma e no conteúdo, tornando os dois uma mesma parte do todo. E trouxe para a arte um novo conceito, o de passar não só o que se vê ou o que se sente, mas sim os dois juntos, de forma unica e individual, sua propria impressão.
Assim, pode-se dizer, aconteceu na Tropicália através dos conceitos de forma e conteúdo.

Vídeos: Os videos apresentados neste blog trazem consigo um questionamento, para disponibilizar uma auto-reflexão. Até para melhor entender o desenvolvimento.
Como já enfatizado, o Impressionismo apresentou uma nova realidade única de cada artista, porém agora a realidade é passada para o receptor, pois aqui está a real interpretação. Cada um fará sua análise e, talves, entenderá que o que é forma para um pode ser conteúdo para outro, o que é realidade para um é idealidade para outro, e tudo se encontra na subjetividade. É só compreender que tudo é como uma graforréia, sem direções. Há de se analizar para todos os lados, todas as esferas, para se chegar ao real entendimento equilibrado. Portanto os vídeos devem ser assistidos com muita sensibilidade e cuidado.

Sites: Os sites aqui citados estão para um maior entendimento de assuntos participantes da "Esfera Tropicalista". Primeiro o site da trilogia Qatsi, que trata da vida em todos os seus movimentos e relações, depois o site de artigos da Serra Pelada, que mostra a realidade de um grupo da sociedade que esperou muito tempo para serem reconhecidos como "escravos" do mundo moderno. Acima de tudo esses dois sites tratam da realidade humana e suas esferas.

Música: A música escolhida para este trabalho e muito representativa, trata de assuntos como o mundo ideal, o passado, o presente, o real, o "mistério do planeta", a estagnação humana e o equilibrio. Desta forma não faço uma ligação direta, pois seria muito facil relacionar Novos Bainos com o Tropicalismo. Fico preso nesta letra e no "feeling" que ela tem!
Tem uma ótima sonoridade e ironicamente é dos Novos Bainos, pós-Tropicália!

Música - Novos Bainos

Mistério do planeta

(Morais e Galvão)

Vou mostrando como sou
E vou sendo como posso
Jogando meu corpo no mundo
Andando por todos os cantos
E pela lei natural dos encontros
Eu deixo e recebo um tanto
E passo aos olhos nus
Ou vestidos de lunetas
Passado, presente
Participo sendo
O mistério do planeta

O tríplice mistério do stop
Que eu passo como sendo ele
No que fica em cada um
No que sigo o meu caminh
E no ar que fez, que assistiu,
Abra um parêntese, não se esqueça
Que independente disso
Eu não passo de um malandro
De um moleque do Brasil
Que peço e dou esmolas
Mas ando e penso sempre
Com mais de um
Por isso ninguém vê minha sacola

Site II - Serra Pelada

http://www.terra.com.br/istoe/ensaios/serra.htm

Site I - Trilogia Qatsi

http://www.koyaanisqatsi.org/

VÍDEO III - Powaqqtsi (vida em trasformação)



Onde está a idealidade? Será ela a mais pura realidade?

OBS: Percepa a concepção de forma e conteúdo neste vídeo.

VÍDEO II - Cinema transcendental



Será a transcendência o equilíbrio da sociedade? Pense nisso se utilizando da relação "tradicinal X conservador"

VÍDEO I - Documentario Di Cavalcanti (Glauber Rocha)



Até que ponto a arte de um artista supera-o? Pense isso através da relação real X ideal X virtual.

terça-feira, 3 de abril de 2007

IMAGEM III - Van Gogh e Claude Monet

Van Gogh, Pintor Impressionista


Claude Monet, Pintor Impressionista


IMAGEM II - Théodore Rousseau

Théodore Rousseau, Pintor Realista

IMAGEM I - William Turner


William Turner, Pintor Romantico

Wiki II

Sincretismo:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Sincretismo

Wiki I

Aculturação:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Acultura%C3%A7%C3%A3o

TEXTO TEÓRICO - O sincretismo da Umbanda.

"(...)A Umbanda teve suas razões de surgir no universo das religiões. De um lado os africanos não incorporavam espíritos dos morto (eguns); de outra parte, os dirigentes kardecistas, por preconceito, não admitiam em nas sessões, a manifestação de espíritos de índios e negros incorporados em seus médiuns. Então se estabeleceu uma lacuna entre os cultos de nações e os cultos de mesa branca, sem a possibilidade daqueles espíritos se manifestarem para atender a reclamos e necessidades da maioria da população dominante nas cidades situadas entre a classe alta e a mais baixa. Como disseminavam as macumbas e feitiçarias, não havia meios de combatê-las; os negros por sobrevivência lhes davam causa e o kardecismo, mais doutrinário, não possuía força para enfrentálas. Era necessário o advento da Umbanda para preencher a lacuna e dar combate às ligações do mal e amparo aos necessitados marginalizados pe-la união de quatro troncos principais: os cultos de Nações, o Catolicismo, a Pajelança e o Karde-cismo.(...)"
Fonte:

TEXTO LITERÁRIO - A terceira margem do rio

"Nosso pai era homem cumpridor, ordeiro, positivo; e sido assim desde mocinho e menino, pelo que testemunharam as diversas sensatas pessoas, quando indaguei a informação. Do que eu mesmo me alembro, ele não figurava mais estúrdio nem mais triste do que os outros, conhecidos nossos. Só quieto. Nossa mãe era quem regia, e que ralhava no diário com a gente — minha irmã, meu irmão e eu. Mas se deu que, certo dia, nosso pai mandou fazer para si uma canoa.
Era a sério. Encomendou a canoa especial, de pau de vinhático, pequena, mal com a tabuinha da popa, como para caber justo o remador. Mas teve de ser toda fabricada, escolhida forte e arqueada em rijo, própria para dever durar na água por uns vinte ou trinta anos. Nossa mãe jurou muito contra a idéia. Seria que, ele, que nessas artes não vadiava, se ia propor agora para pescarias e caçadas? Nosso pai nada não dizia. Nossa casa, no tempo, ainda era mais próxima do rio, obra de nem quarto de légua: o rio por aí se estendendo grande, fundo, calado que sempre. Largo, de não se poder ver a forma da outra beira. E esquecer não posso, do dia em que a canoa ficou pronta.
Sem alegria nem cuidado, nosso pai encalcou o chapéu e decidiu um adeus para a gente. Nem falou outras palavras, não pegou matula e trouxa, não fez a alguma recomendação. Nossa mãe, a gente achou que ela ia esbravejar, mas persistiu somente alva de pálida, mascou o beiço e bramou: — "Cê vai, ocê fique, você nunca volte!" Nosso pai suspendeu a resposta. Espiou manso para mim, me acenando de vir também, por uns passos. Temi a ira de nossa mãe, mas obedeci, de vez de jeito. O rumo daquilo me animava, chega que um propósito perguntei: — "Pai, o senhor me leva junto, nessa sua canoa?" Ele só retornou o olhar em mim, e me botou a bênção, com gesto me mandando para trás. Fiz que vim, mas ainda virei, na grota do mato, para saber. Nosso pai entrou na canoa e desamarrou, pelo remar. E a canoa saiu se indo — a sombra dela por igual, feito um jacaré, comprida longa.
Nosso pai não voltou. Ele não tinha ido a nenhuma parte. Só executava a invenção de se permanecer naqueles espaços do rio, de meio a meio, sempre dentro da canoa, para dela não saltar, nunca mais. A estranheza dessa verdade deu para. estarrecer de todo a gente. Aquilo que não havia, acontecia. Os parentes, vizinhos e conhecidos nossos, se reuniram, tomaram juntamente conselho.
Nossa mãe, vergonhosa, se portou com muita cordura; por isso, todos pensaram de nosso pai a razão em que não queriam falar: doideira. Só uns achavam o entanto de poder também ser pagamento de promessa; ou que, nosso pai, quem sabe, por escrúpulo de estar com alguma feia doença, que seja, a lepra, se desertava para outra sina de existir, perto e longe de sua família dele. As vozes das notícias se dando pelas certas pessoas — passadores, moradores das beiras, até do afastado da outra banda — descrevendo que nosso pai nunca se surgia a tomar terra, em ponto nem canto, de dia nem de noite, da forma como cursava no rio, solto solitariamente. Então, pois, nossa mãe e os aparentados nossos, assentaram: que o mantimento que tivesse, ocultado na canoa, se gastava; e, ele, ou desembarcava e viajava s'embora, para jamais, o que ao menos se condizia mais correto, ou se arrependia, por uma vez, para casa.
No que num engano. Eu mesmo cumpria de trazer para ele, cada dia, um tanto de comida furtada: a idéia que senti, logo na primeira noite, quando o pessoal nosso experimentou de acender fogueiras em beirada do rio, enquanto que, no alumiado delas, se rezava e se chamava. Depois, no seguinte, apareci, com rapadura, broa de pão, cacho de bananas. Enxerguei nosso pai, no enfim de uma hora, tão custosa para sobrevir: só assim, ele no ao-longe, sentado no fundo da canoa, suspendida no liso do rio. Me viu, não remou para cá, não fez sinal. Mostrei o de comer, depositei num oco de pedra do barranco, a salvo de bicho mexer e a seco de chuva e orvalho. Isso, que fiz, e refiz, sempre, tempos a fora. Surpresa que mais tarde tive: que nossa mãe sabia desse meu encargo, só se encobrindo de não saber; ela mesma deixava, facilitado, sobra de coisas, para o meu conseguir. Nossa mãe muito não se demonstrava.
Mandou vir o tio nosso, irmão dela, para auxiliar na fazenda e nos negócios. Mandou vir o mestre, para nós, os meninos. Incumbiu ao padre que um dia se revestisse, em praia de margem, para esconjurar e clamar a nosso pai o 'dever de desistir da tristonha teima. De outra, por arranjo dela, para medo, vieram os dois soldados. Tudo o que não valeu de nada. Nosso pai passava ao largo, avistado ou diluso, cruzando na canoa, sem deixar ninguém se chegar à pega ou à fala. Mesmo quando foi, não faz muito, dos homens do jornal, que trouxeram a lancha e tencionavam tirar retrato dele, não venceram: nosso pai se desaparecia para a outra banda, aproava a canoa no brejão, de léguas, que há, por entre juncos e mato, e só ele conhecesse, a palmos, a escuridão, daquele.
A gente teve de se acostumar com aquilo. Às penas, que, com aquilo, a gente mesmo nunca se acostumou, em si, na verdade. Tiro por mim, que, no que queria, e no que não queria, só com nosso pai me achava: assunto que jogava para trás meus pensamentos. O severo que era, de não se entender, de maneira nenhuma, como ele agüentava. De dia e de noite, com sol ou aguaceiros, calor, sereno, e nas friagens terríveis de meio-do-ano, sem arrumo, só com o chapéu velho na cabeça, por todas as semanas, e meses, e os anos — sem fazer conta do se-ir do viver. Não pojava em nenhuma das duas beiras, nem nas ilhas e croas do rio, não pisou mais em chão nem capim. Por certo, ao menos, que, para dormir seu tanto, ele fizesse amarração da canoa, em alguma ponta-de-ilha, no esconso. Mas não armava um foguinho em praia, nem dispunha de sua luz feita, nunca mais riscou um fósforo. O que consumia de comer, era só um quase; mesmo do que a gente depositava, no entre as raízes da gameleira, ou na lapinha de pedra do barranco, ele recolhia pouco, nem o bastável. Não adoecia? E a constante força dos braços, para ter tento na canoa, resistido, mesmo na demasia das enchentes, no subimento, aí quando no lanço da correnteza enorme do rio tudo rola o perigoso, aqueles corpos de bichos mortos e paus-de-árvore descendo — de espanto de esbarro. E nunca falou mais palavra, com pessoa alguma. Nós, também, não falávamos mais nele. Só se pensava. Não, de nosso pai não se podia ter esquecimento; e, se, por um pouco, a gente fazia que esquecia, era só para se despertar de novo, de repente, com a memória, no passo de outros sobressaltos.
Minha irmã se casou; nossa mãe não quis festa. A gente imaginava nele, quando se comia uma comida mais gostosa; assim como, no gasalhado da noite, no desamparo dessas noites de muita chuva, fria, forte, nosso pai só com a mão e uma cabaça para ir esvaziando a canoa da água do temporal. Às vezes, algum conhecido nosso achava que eu ia ficando mais parecido com nosso pai. Mas eu sabia que ele agora virara cabeludo, barbudo, de unhas grandes, mal e magro, ficado preto de sol e dos pêlos, com o aspecto de bicho, conforme quase nu, mesmo dispondo das peças de roupas que a gente de tempos em tempos fornecia.
Nem queria saber de nós; não tinha afeto? Mas, por afeto mesmo, de respeito, sempre que às vezes me louvavam, por causa de algum meu bom procedimento, eu falava: — "Foi pai que um dia me ensinou a fazer assim..."; o que não era o certo, exato; mas, que era mentira por verdade. Sendo que, se ele não se lembrava mais, nem queria saber da gente, por que, então, não subia ou descia o rio, para outras paragens, longe, no não-encontrável? Só ele soubesse. Mas minha irmã teve menino, ela mesma entestou que queria mostrar para ele o neto. Viemos, todos, no barranco, foi num dia bonito, minha irmã de vestido branco, que tinha sido o do casamento, ela erguia nos braços a criancinha, o marido dela segurou, para defender os dois, o guarda-sol. A gente chamou, esperou. Nosso pai não apareceu. Minha irmã chorou, nós todos aí choramos, abraçados.
Minha irmã se mudou, com o marido, para longe daqui. Meu irmão resolveu e se foi, para uma cidade. Os tempos mudavam, no devagar depressa dos tempos. Nossa mãe terminou indo também, de uma vez, residir com minha irmã, ela estava envelhecida. Eu fiquei aqui, de resto. Eu nunca podia querer me casar. Eu permaneci, com as bagagens da vida. Nosso pai carecia de mim, eu sei — na vagação, no rio no ermo — sem dar razão de seu feito. Seja que, quando eu quis mesmo saber, e firme indaguei, me diz-que-disseram: que constava que nosso pai, alguma vez, tivesse revelado a explicação, ao homem que para ele aprontara a canoa. Mas, agora, esse homem já tinha morrido, ninguém soubesse, fizesse recordação, de nada mais. Só as falsas conversas, sem senso, como por ocasião, no começo, na vinda das primeiras cheias do rio, com chuvas que não estiavam, todos temeram o fim-do-mundo, diziam: que nosso pai fosse o avisado que nem Noé, que, por tanto, a canoa ele tinha antecipado; pois agora me entrelembro. Meu pai, eu não podia malsinar. E apontavam já em mim uns primeiros cabelos brancos.
Sou homem de tristes palavras. De que era que eu tinha tanta, tanta culpa? Se o meu pai, sempre fazendo ausência: e o rio-rio-rio, o rio — pondo perpétuo. Eu sofria já o começo de velhice — esta vida era só o demoramento. Eu mesmo tinha achaques, ânsias, cá de baixo, cansaços, perrenguice de reumatismo. E ele? Por quê? Devia de padecer demais. De tão idoso, não ia, mais dia menos dia, fraquejar do vigor, deixar que a canoa emborcasse, ou que bubuiasse sem pulso, na levada do rio, para se despenhar horas abaixo, em tororoma e no tombo da cachoeira, brava, com o fervimento e morte. Apertava o coração. Ele estava lá, sem a minha tranqüilidade. Sou o culpado do que nem sei, de dor em aberto, no meu foro. Soubesse — se as coisas fossem outras. E fui tomando idéia.
Sem fazer véspera. Sou doido? Não. Na nossa casa, a palavra doido não se falava, nunca mais se falou, os anos todos, não se condenava ninguém de doido. Ninguém é doido. Ou, então, todos. Só fiz, que fui lá. Com um lenço, para o aceno ser mais. Eu estava muito no meu sentido. Esperei. Ao por fim, ele apareceu, aí e lá, o vulto. Estava ali, sentado à popa. Estava ali, de grito. Chamei, umas quantas vezes. E falei, o que me urgia, jurado e declarado, tive que reforçar a voz: — "Pai, o senhor está velho, já fez o seu tanto... Agora, o senhor vem, não carece mais... O senhor vem, e eu, agora mesmo, quando que seja, a ambas vontades, eu tomo o seu lugar, do senhor, na canoa!..." E, assim dizendo, meu coração bateu no compasso do mais certo.
Ele me escutou. Ficou em pé. Manejou remo n'água, proava para cá, concordado. E eu tremi, profundo, de repente: porque, antes, ele tinha levantado o braço e feito um saudar de gesto — o primeiro, depois de tamanhos anos decorridos! E eu não podia... Por pavor, arrepiados os cabelos, corri, fugi, me tirei de lá, num procedimento desatinado. Porquanto que ele me pareceu vir: da parte de além. E estou pedindo, pedindo, pedindo um perdão.
Sofri o grave frio dos medos, adoeci. Sei que ninguém soube mais dele. Sou homem, depois desse falimento? Sou o que não foi, o que vai ficar calado. Sei que agora é tarde, e temo abreviar com a vida, nos rasos do mundo. Mas, então, ao menos, que, no artigo da morte, peguem em mim, e me depositem também numa canoinha de nada, nessa água que não pára, de longas beiras: e, eu, rio abaixo, rio a fora, rio a dentro — o rio."

Rosa, João Gimarães. "Primeiras Estórias", Editora Nova Fronteira - Rio de Janeiro, 1988, pág. 32